O Mecanismo de Anticítera
Mais de mil anos antes dos relógios astronômicos da Europa medieval, alguém na Grécia antiga colocou o céu inteiro dentro de uma caixa de madeira. Esta é a história do objeto mais enigmático da Antiguidade.
Gire a manivela
Escolha uma data e veja o que os ponteiros de bronze mostrariam: o Sol e a Lua no zodíaco, a fase da Lua, o dia no calendário egípcio e os grandes ciclos do céu.
Reconstrução ilustrativa com cálculos astronômicos aproximados. A fase da Lua aparece como vista do hemisfério sul. As posições nos ciclos metônico e de Saros usam um ponto de partida moderno, não o original do mecanismo.
A descoberta
Na primavera de 1900, mergulhadores de esponjas da ilha de Symi se abrigavam de uma tempestade perto de Anticítera, entre Creta e o Peloponeso. A cerca de 45 metros de profundidade, encontraram os restos de um navio romano carregado de tesouros, naufragado por volta de 70 a 60 a.C.
A operação de resgate, uma das primeiras da arqueologia subaquática, durou até 1901 e trouxe estátuas de bronze e mármore, vidros, cerâmicas e moedas. Um bloco de bronze e madeira, deformado pelo mar, ficou esquecido num canto do museu.
Em maio de 1902, o arqueólogo Valerios Stais notou, num dos pedaços que haviam se partido, uma roda dentada. Começava um mistério que já dura mais de 120 anos.
O naufrágio
Um navio carregado de obras gregas afunda a caminho, provavelmente, de Roma.
O resgate
Mergulhadores de esponjas recuperam a carga com apoio do governo grego.
A engrenagem
Valerios Stais identifica a primeira roda dentada nos fragmentos.
"Gears from the Greeks"
Derek de Solla Price publica o primeiro grande estudo, com radiografias dos fragmentos.
A tomografia
O Antikythera Mechanism Research Project revela engrenagens ocultas e milhares de letras gravadas.
O cosmos reconstruído
A University College London propõe um modelo completo da face frontal, com os planetas.
Como funcionava
Imagine uma caixa de madeira com cerca de 34 por 18 centímetros, com mostradores de bronze na frente e atrás e uma manivela na lateral. Cada volta da manivela avançava o tempo, e dezenas de engrenagens transformavam esse movimento em ciclos celestes.
A face frontal
- Anel do zodíaco, com os 12 signos.
- Anel do calendário egípcio de 365 dias, que podia ser ajustado.
- Ponteiros do Sol e da Lua.
- Esfera da fase lunar, metade prateada, metade escura.
- Provavelmente, os cinco planetas visíveis a olho nu.
A face traseira
- Espiral do ciclo metônico: 235 meses em 19 anos.
- Espiral do Saros: 223 meses, para prever eclipses.
- Mostrador dos Jogos: Olímpicos, Ístmicos, Nemeus e Píticos.
- Ciclos de 76 anos (calípico) e de 54 anos (exeligmos).
A Lua que acelera
A Lua não anda sempre na mesma velocidade pelo céu. Para reproduzir isso, o construtor montou duas engrenagens sobrepostas, ligadas por um pino que desliza numa ranhura. O resultado é uma Lua que acelera e desacelera ao longo do mês, exatamente como previa a teoria do astrônomo Hiparco. Nenhum outro artefato conhecido da época mostra uma solução tão engenhosa.
O manual gravado no bronze
As tomografias revelaram milhares de caracteres gregos gravados nas placas e na tampa. São legendas e instruções: nomes de meses, descrições dos eclipses previstos, com sua cor e direção do vento, e explicações sobre os planetas. Uma espécie de manual do usuário de dois mil anos.
Ninguém sabe ao certo quem o construiu. Mas quem o fez entendia o céu melhor do que quase qualquer pessoa viva na época.Capítulo 3
Quem construiu?
Os nomes dos meses no calendário do mecanismo são de origem coríntia. Isso aponta para Corinto ou uma de suas colônias, como Siracusa, na Sicília, terra de Arquimedes. O orador romano Cícero descreve uma esfera mecânica criada por Arquimedes e levada a Roma como troféu de guerra. Seria um parente do nosso mecanismo?
Outra hipótese aponta para a ilha de Rodes, onde viveu Hiparco e onde o filósofo Posidônio, amigo de Cícero, teria construído um aparelho parecido. A datação também é debatida, com estimativas que vão de cerca de 200 a 100 a.C.
Capítulo 4Teoria e evidência
O que diz a teoria
Para os defensores dos antigos astronautas, o mecanismo é um "artefato fora do lugar": tecnologia avançada demais para seu tempo, que só faria sentido com ajuda de uma civilização perdida ou de visitantes de outros mundos.
O que diz a ciência
Cada ciclo do mecanismo vem de séculos de observações babilônicas e da matemática grega. Os erros de construção, como dentes irregulares, mostram trabalho humano e manual. O verdadeiro mistério é por que nenhum outro sobreviveu.
Talvez a resposta mais simples seja também a mais fascinante: o bronze era valioso e reaproveitado. Outros mecanismos podem ter existido e virado moedas, estátuas ou armas. O de Anticítera só sobreviveu porque afundou.
Onde ver
Os fragmentos originais estão expostos no Museu Arqueológico Nacional de Atenas, na Grécia, ao lado de reconstruções do mecanismo.
- Freeth, T. et al. (2006). Decoding the ancient Greek astronomical calculator known as the Antikythera Mechanism. Nature, 444.
- Freeth, T. et al. (2008). Calendars with Olympiad display and eclipse prediction on the Antikythera Mechanism. Nature, 454.
- Freeth, T. et al. (2021). A Model of the Cosmos in the ancient Greek Antikythera Mechanism. Scientific Reports, 11.
- Price, D. de S. (1974). Gears from the Greeks. Transactions of the American Philosophical Society.
- Jones, A. (2017). A Portable Cosmos. Oxford University Press.